Sábado, 15 de Julho de 2006

A MÚSICA, A TRADIÇÃO DESDE OS TEMPOS MAIS REMOTOS

A Música e os instrumentos musicais populares portugueses, tais como os conhecemos hoje, são resultantes de um longo processo em que múltiplos contributos
e influências aconteceram.
Do período anterior à romanização da Península Ibérica, pouco sabemos sobre a música e dança de Iberos e Celtas, e dos povos que chegavam do Mediterrâneo:
Fenícios, Gregos e Cartagineses, no 1º milénio antes de Cristo.
Estrabão, embora nunca tivesse estado na Península, dá-nos, com base em escritos anteriores que leu e compilou, a seguinte notícia referente aos Lusitanos
(Sasportes, 1970)
[i]:
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref1
"...
mesmo bebendo, os homens põe-se a dançar, ora formando coros ao som da flauta e da trombeta, ora saltando cada um per si, a ver quem salta mais alto
e mais graciosamente cai de joelhos. Na Bastetânia (povos do Sudeste) as mulheres dançam também, misturadas com os homens, cada uma tendo o seu par na
frente, a quem de vez em quando dá a mão."
A Lusitânia era uma região cheia de contrastes. A fertilidade e a riqueza das suas costas, celebrada por vários autores, e onde habitavam ricos mercadores
e grandes proprietários constrastava com a improdutividade e pobreza da sua zona interior, povoada por pastores e caçadores. A música devia ser um elemento
festivo primordial nos actos da vida pública e privada dos ricos habitantes do costa, embora sejam escassas as referências em textos históricos (Cuesta,
1983)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref2
Diodoro de Sicília fala-nos de um tipo de dança muito rápida dançada pelos Lusitanos em tempo de paz. Tinham ainda danças e cantos de guerra que faziam
antes das batalhas. Quando da morte de Viriato, os seus soldados fizeram danças guerreiras e cantaram os seus feitos, o que segundo La Cuesta, nos revela
a existência de canções épicas de que apenas encontramos traços na tradição oral.
É lícito supor que, à semelhança do que acontece com outros povos pastoris, as flautas, tambores e talvez as gaitas de foles já se tocassem, mas não podemos
ir mais longe nas suposições.
A romanização da Península, posterior às guerras com os Celtiberos e Lusitanos (154/137 A.C.) respeitou as crenças e o culto dos povos conquistados, dando
no entanto lugar ao sincretismo próprio da colonização romana nas suas Províncias. A iconografia mostra-nos diversos instrumentos musicais que pela sua
utilização funcional podemos agrupar em instrumentos de culto, da guerra, do trabalho, de cenas mitológicas, de teatro e espectáculo e de dança (Fleischauer,
1964)

http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref3

La Cuesta refere que as comunidades judaicas estavam já na Península no período romano, embora sejam escassos e imprecisos os dados de que dispomos. Já
é certa a sua presença nos primeiros anos do sec.IV, em que o Concílio de Elvira (Granada) toma várias disposições relativas às relações entre cristãos
e judeus. O culto cristão não era nas suas origens substancialmente diferente do judaico, tendo a sua separação progressiva conservado deste o canto e
a recitação de salmos, junto com a leitura da Bíblia.
O 1º milénio da era cristã traz à Península, após a romanização, Alanos, Vândalos, Suevos e Visigodos, vindos do Norte e Centro da Europa. Com eles, e até
ao início do domínio árabe em 711, temos por certo a constituição de um repertório litúrgico hispânico de grande exuberância, especialmente no tratamento
dos vocalizos e dos seus numerosos aleluias (Hameline, 1982)
[iv].
Este repertório, tal como os seus congéneres milanês e gaélico, resultou da fusão do rito romano com as tradições locais dos povos que se converteram ao
catolicismo. Coexistindo com ele, os cultos agrários e solares, das forças naturais, das árvores, dos cereais, das águas, do fogo, dos mortos, etc, das
festividades cíclicas dos povos Ibéricos, que estão na origem de cânticos do ciclo solar, cantos ligados aos ritos de fertilidade, prantos e cantos fúnebres,
sequências e tropos.
Os Mouros, que "nos quase oito séculos de permanência na Península não se fundiram racial nem culturalmente com os autóctones" (Matos, 1979)
[v],
trouxeram-nos instrumentos, músicas e danças que podemos encontrar nas iluminuras das Cantigas de Santa Maria e no Cancioneiro da Ajuda (secs.XIII/XIV).
Com a Reconquista, ficaram a viver em relativa liberdade, podendo conservar os seus costumes, leis e religião (vd.Carta de Foral de Lisboa de 1170).
As comunidades judaicas, de há muito presentes na Península, viveram sob o domínio mouro e depois cristão. Diz-nos Viegas Guerreiro (1979)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref6
que eram "gente que mal se distinguia da cristã, que falava a mesma língua e vencida de iguais tentações", não admira que, "em períodos normais de paz,
livres da excitação doutrinária, se tenham estabelecido com ela relações de simpatia e amizade com todas as consequencias daí resultantes".
Oliveira Marques (1980)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref7
descreve-nos as festas em que participavam judeus e mouros, bailando, tangendo e tocando, como aconteceu quando do casamento do príncipe D.Afonso, filho
de D.João II, que ordenou que " de tôdalas mourarias do reino, viessem às festas tôdolos mouros e mouras que soubessem bailar, tanger,cantar...".
O Códice Calistino conta-nos como no sec.XII se encontravam em Santiago de Compostela peregrinos de toda a Europa, entre eles músicos tocando instrumentos
das várias regiões de onde vinham. La Cuesta, embora nos alerte para um certo cuidado na leitura do Códice, que por vezes revela mais o que seria desejável,
segundo o seu autor, do que a realidade histórica, transcreve o seguinte excerto:
"Uns, cantavam acompanhando-se com pandeiretas, ...tíbias, ...físulas, ...trombetas,...sacabuchas, vihuelas, rotas britânicas e gaélicas, ...saltérios;
outros, com toda a espécie de instrumentos, ficam sem dormir toda a noite, enquanto outros choram os seus pecados, outros recitam salmos. Ouvem-se todo
o tipo de línguas ... e as canções dos alemães, ingleses, gregos e outras regiões e gentes".
As peregrinações e, embora limitadas no tempo, as cruzadas (1096/1270) contribuiram decisivamente para a difusão de instrumentos e repertórios musicais
na Península Ibérica.
As romarias, de âmbito mais restrito mas presentes em todo o País, eram (e são) peregrinações populares a um lugar tornado sagrado pela presença de um "santo",
em locais de que por vezes há notícias anteriores à formação da nacionalidade (Sanchis, 1983)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref7
Nelas se processava a troca entre os romeiros de "modas de vestuário, composições musicais ou coreográficas, talentos de poetas e contadores circulavam
durante as romarias de uma aldeia para a outra, contribuindo para criar unidades culturais mais largas, se bem que em escala limitada".
Dos instrumentos musicais de que temos notícia antes de 1500 em Portugal, referimos, nos cordofones sem braço a harpa, a lira, a rota, a cítara, o saltério
e o monocórdio: nos cordofones com braço, o alaúde, a mandora, a bandurra, a baldosa, a cítola, a cedra, a guitarra e a vihuela; todos eram tocados com
os dedos ou com plectro. Nos cordofones de corda friccionada, o arco, a giga, o arrabil mourisco, o rabel, a vihuela de arco e a sinfonia (sanfona).
Nos aerofones, as longas, trompas e charamelas. a exabeba (flauta transversal), o anafil, o albogue, a flauta, o odrezinho, a pípia, a gaita (de foles)
e o orgão. Nos instrumentos de pele, o tambor, o pandeiro, o adufe, o atabal ou atabaque.
Estes instrumentos foram tocados por Cristãos, Mouros e Judeus, notando-se na iconografia e fontes escritas que alguns deles aparecem ligados a uma das
comunidades, o que talvez explique o seu progressivo desaparecimento com a expulsão de Mouros e Judeus ordenada por D.Manuel em 1496, caso não se convertessem
à fé cristã. As perseguições de que foram alvo os conversos ou cristãos-novos e os mouriscos, designações dadas a todos os que foram forçados a aceitar
o baptismo, marcam o início de um período de intolerância religiosa que iria culminar com a instauração, em Portugal, do tribunal do Santo Ofício por bula
de 1547, no reinado de D.João III.
Os primeiros cativos negros tinham chegado a Portugal em 1441. Na 2ª metade do sec. XV chegaram ainda a Portugal os Ciganos que também seriam alvo de proibições
de entrada no reino e mesmo ordem de expulsão em 1526 (Torres, 1979)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref7
A 1ª referencia literária a Ciganos é a Farsa das Ciganas de Gil Vicente, talvez representada na Páscoa de 1525.
Em 1535 o humanista Clenardo escrevia: "Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos". Avalia-se em cerca de
10.000 o número de escravos em Lisboa, em 1551, num total de 100.000 habitantes (Miguel, 1979)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref7
Do ambiente cultural e musical no início da Expansão, é revelador o relato dos esponsais da Infanta D.Leonor, irmã de D.Afonso V, com o Imperador Frederico
III da Alemanha, em 1451, representado nas festas e cerimónias pelos seus embaixadores. Um deles, Lanckmann, diz-nos:

- "Vieram depois os etiopes e mouros, com artifício à maneira de dragão, e com danças e outros aparatos, fazendo reverência à Imperatriz"(...)
-"No 15º dia do mês de Outubro, o sereníssimo rei de Portugal mandou fazer muitas danças na Praça fronteira ao Palácio da Senhora Imperatriz".(...)
-"No 17º dia do mês de Outubro, logo de madrugada, antes do nascer do Sol, vieram de uma parte cristãos, de outra parte sarracenos, de outra selvagens e
de outra ainda judeus, e cada um destes bandos cantava, gritava e foliava na sua própria língua e maneira"
-"No 20º dia do mês de Outubro, antes do nascer do Sol, vieram a esta praça turmas de gentes de um e outro sexo, de diversas línguas e nações, em folgares
e danças diversas".
-"No 23º dia, veio muito povo defronte do palácio da senhora Imperatriz Esposa, com diversos instrumentos músicos - tubas, buzinas,etc, - e dividiu-se em
quatro troços: o primeiro de cristãos, de ambos os sexos, dançando à sua maneira; o 2º, de mouros e mouras, também à sua maneira; o 3º de judeus de um
e outro sexo, no seu costume; o 4º de mouros, etíopes e selvagens da Ilha Canária, onde os homens e mulheres andam nus, julgando serem e terem sido, assim,
únicos no mundo".

As Festas do Império do Espírito Santo e a Procissão do Corpo de Deus, amplamente participadas pelo povo, e as sucessivas regulamentações de que são objecto
nos secs. XV e XVI, mostram-nos no entanto o conflito sempre presente entre os costumes populares e a igreja, que de há muito se sentia ameaçada pela persistência
do que designava por "costumes gentios". A proibição das Janeiras e Maias no reinado de D.João I daria mais tarde lugar a tentativas de canalizar as festas
pagãs para o calendário religioso. As danças que se realizavam nos templos foram proibidas e tranferidas para as procissões, alguns dos instrumentos musicais
foram considerados impróprios de figurarem nas cerimónias religiosas e mesmo, é-nos permitido supor, de serem tocados por cristãos.
O movimento da Contra-Reforma, de que a Inquisição e os Jesuítas são instituições fundamentais, instala-se em Portugal com a chegada dos Jesuítas em 1540
e o Tribunal do Santo Ofício em 1547. Os Jesuítas, principais obreiros das decisões do Concílio de Trento, ocupavam-se em Portugal da "pregação, exercícios
espirituais, obras de caridade e, em especial, a instrução religiosa da juventude", - e da evangelização e catequese nos territórios ultramarinos e no
Oriente.
As primeiras levas de colonos são no entanto anteriores a esta acção evangelizadora e explicam de certo modo a sobrevivência dos antigos costumes e dos
instrumentos musicais a elas ligados, por exemplo, nos Açores, com as Festas do Espírito Santo e no Brasil, pelo uso cerimonial da viola, também nas folias
do Divino Espírito Santo.
Pensamos por isso que até meados do sec.XVI, a música e os instrumentos musicais dos vários povos e culturas presentes na Península Ibérica se influenciaram
mútuamente, conservando cada grupo as particularidades e identidade que lhes eram próprias, quando lhes era possível, e adoptando de outros, mercê de condicionantes
de ordem vária, o que melhor correspondia à necessária mudança e adaptação a novas situações. Com o movimento da contra-reforma, os instrumentos musicais
portugueses, na sua forma e funções, vão-se restringindo ao que hoje encontramos no panorama musical português e em que as excepções, devidas ao isolamento
de algumas regiões, no País e nos colonatos ultramarinos, nos confirmam que estamos em presença de dois momentos essencialmente diferentes da cultura portuguesa.
Excepções que são sobrevivências, ou, em alguns casos, afirmação e resistencia dos povos às proibições da igreja e do poder temporal.
O crescimento da população a partir de 1450, que se manterá até ao final do sec.XVI é acompanhado por migrações internas do campo para a cidade e da montanha
para a planície. Acentuam-se as   áreas fundamentais que caracterizam, até aos nossos dias, o País, sob o ponto de vista cultural.
A música e os instrumentos populares resultantes das profundas modificações que o País vive, e que Gil Vicente tão bem descreve no Triunfo do Inverno, lamentando
o declínio da gaita de foles e do pandeiro nas terras ocidentais, onde "já não há hi gaita nem gaiteiro", permite-nos concluir que as particularidades
das várias regiões estavam definidas no que de essencial as viria a caracterizar.

 

publicado por tradicional às 12:23
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