Sábado, 15 de Julho de 2006

Panorama Músico-Instrumental Português

Nas terras baixas do Noroeste, do rio Minho ao Tejo, populosas e progressivas, prevalecem geralmente os cordofones populares ao serviço de uma canção de
carácter profano e puramente lúdico, de contornos melódicos simples, de um diatonismo elementar e de ritmos coreográficos regulares e vivos, os cordofones
populares - a viola, o cavaquinho, a rabeca e certas espécies mais modernas: a guitarra (portuguesa), o violão, etc,. Nas terras altas do planalto Ibérico,
a Nordeste, de Trás-os-Montes às Beiras Interiores, até ao Alentejo, no Sul, mais isoladas e preservadas, onde a canção é ainda presentemente de tipo arcaico,
de linhas severas, mostrando não raro remeniscências modais e entonações micro-cromáticas, prevalecem os velhos instrumentos do ciclo pastoril: em Trás-os-Montes,
a gaita de foles (e numa área restrita, a Nordeste, o tamboril e flauta tocados por uma só pessoa) e o pandeiro; nas Beiras, o adufe que serve a música
tanto das ocasiões lúdicas como das ocasiões cerimoniais, festas religiosas, e a própria liturgia popular, dessas regiões.
Esta distribuição poderia parecer que aponta uma coincidência entre o carácter da cultura e da música, por um lado, e dos instrumentos, pelo outro, nas
duas áreas. Contudo, encontramos a gaita de foles com muita vitalidade em todo o Noroeste - aliás com um repertório mal ajustado ao instrumento- a acompanhar
as festas religiosas populares, procissões, a visita pascal, etc, (da qual são nitidamente excluidos, pela força do costume, precisamente os cordofones);
e simetricamente, vemos a Leste a viola, embora rara, que por seu turno acompanha um género lúdico local aparentado com a canção das terras ocidentais.
Parece pois que os cordofones populares em geral se podem considerar instrumentos específicos da música profana e de expansão lúdica ou lírica, com exclusão
de quaisquer usos cerimoniais; ao passo que as outras categorias e designadamente a gaita de foles, o conjunto do tamboril e flauta, o pandeiro quadrangular
(e mesmo toda a série dos idiofones menores e outros "barulhentos"), ao mesmo tempo que servem as músicas das festas e danças profanas, são contudo também
admitidas, sem objecção, em funções mais austeras, como instrumentos cerimoniais e mesmo, em certos casos (muito raros) sagrados.
Este carácter dos cordofones, que detectamos nos casos actuais, parece também afirmar-se historicamente: a viola foi o mais importante dos instrumentos
trovadorescos, para as suas canções líricas; ao longo dos séculos, ela vê-se através de textos e imagens iconográficas, sempre em ocasiões estrictamente
profanas, danças e diversões, serenatas, cantares amorosos, para entretenimento de lazeres ou a enganar tristezas.
Na Ilha da Madeira, têm grande relevo, como instrumentos para ocasiões lúdicas e de festa, três cordofones da família das violas: a viola, o rajão e o braguinha.
E como espécie cerimonial distinguimos as grandes castanholas usadas na Ribeira Grande, na missa do Parto, no Natal.
Também relativamente aos Açores se podem estabelecer duas categorias fundamentais de instrumentos musicais populares: instrumentos de expansão lúdica e
instrumentos ceriomoniais.
Entre os primeiros distingue-se a viola "da terra" ou "de arame"- a mais importante espécie do arquipélago- que se usa em todas as ocasiões festivas, sozinha
ou a acompanhar o canto das modas e descantes, nos balhos, nos serões e desfolhadas, nas romarias, de caminho, em casamentos, a entreter lazeres e saudades,
etc,. Os instrumentos cerimoniais são fundamentalmente os que figuram nas Folias do Espírito Santo, que se fazem ouvir sublinhando ou acompanhando os cantares
próprios de certos passos dessas complexas celebrações, aliás com cenários muito variáveis de Ilha para Ilha.
O instrumental da Folia encontra-se em muitos sítios em vias de extinção e em seu lugar- e aliás desde há largos decénios- com aceitação crescente, usam-se
bandas ou filarmónicas.
De referir ainda que as violas e alguns cordofones usam-se também por toda a parte nos balhos que têm lugar nas casas dos mordomos, nos cortejos dos bezeros
e outras ocasiões de carácter mais claramente festivas que, apesar disso, se integram no complexo cerimonial das celebrações do Espírito Santo.
O panorama descrito por Ernesto Veiga de Oliveira está em profunda mutação, como já referimos. Persistem no entanto ainda hoje, como nos diz Michel Giacometti
(1981)
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref7
e no que respeita à música vocal, aspectos significativos que de certo modo individualizam a música popular portuguesa no panorama tradicional europeu,
atendendo à sua natureza, modalidades, estruturas e funções.
A polifonia vocal tem em Portugal uma importância raramente igualada em povos da Europa ocidental, sendo quase inexistente em Espanha
http://www.attambur.com/Instrumentos/Portugueses/InstrPortug.htm#_ednref7
; a música religiosa que ocupa um espaço inegável na tradição portuguesa é a que mais se baseia em estilos e modos arcaicos; a presença de um romanceiro
muito rico, ligado à vida colectiva e doméstica das populações rurais, nomeadamente nas áreas extremas do território, Trás-os-Montes, Algarve e Ilhas,
e aos ritos de trabalho (cantigas das segadas, das malhas, da apanha de erva, da fiação e tecelagem do linho) e às datas consagradas do calendário cristão
(Janeiras, Reis, Quaresma) ou ainda em horas devocionais do dia e da noite.

-
Albertino Domingos

publicado por tradicional às 12:12
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