Terça-feira, 20 de Junho de 2006

O BAQUE VIRADO DO MARACATU

O BAQUE VIRADO DO MARACATU
Os maracatus ou nações, como preferem alguns autores, são parte da mais pura cultura popular pernambucana. Desfilam ritmo e realeza nos carnavais do Recife,
descendendo das reuniões de negros escravos, ou não, do século passado. Quem nunca ouviu falar do folguedo nos carnavais recifences ou na cidade de Olinda?
Em Pernambuco, destacamos a existência de dois tipos de maracatu. O de baque virado, com seus reis e rainhas, e o rural, aquele com os tradicionais caboclos
de lança e seus chocalhos. Este último também é chamado de maracatu de "baque solto", ou de "orquestra", mas que abordaremos numa outra ocasião. Durante
as festividades de Carnaval, não é difícil encontrar um maracatu de baque virado e seus integrantes vestidos como nobres da corte, enquanto os tambores
soam alto e forte fazendo vibrar as sacadas e igrejas do centro da cidade.
O foclorista, Roberto Benjamim, frisa em seu livro Folguedos e danças que maracatu (nação africana) é um manifestação criada pelos negros do Brasil - não
existe na África nada parecido. Sua origem está nas festividades católicas de Reis Negros, influenciada pelos cultos afro-brasileiros. "Esta ligação é
tão forte que o maracatu tem sido tomado como uma expressão religiosa. Na verdade, é uma manifestação lúcida, dos grupos religiosos de culto gegê-nagô
do Recife", diz .
Estas manifestações tiveram origem nas celebrações de coroação dos chamados Reis do Congo. As festividades, constantes nos arquivos da Irmandade de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos. Outros grupos fazem referência à santa em seus cânticos folclóricos. O maracatu permitiu aos negros viverem seus momentos
de glória e vestirem-se como em uma corte real portuguesa, no Brasil. Recordando os longínquos momentos de liberdade.
TRADIÇÃO - As marcas das tradições africanas estão incorporadas e presentes nas apresentações. Assim como as características das religiões afro-brasileiras,
que com o fim da escravatura, passaram a concorrer com o catolicismo. Isso provocou, novamente, a perseguição destes cultos. O Estado Novo veio para tentar
dar o golpe de misericórdia no maracatu.
A tradição conseguiu ser mantida com dificuldade. Para a escritora Katarina Real, o enfraquecimento das nações se deve principalmente ao desmoronamento
do orgulho de uma cultura africana e o fim do matriarcado afro-brasileiro. A principal personagem das nações é a rainha. Fazem parte do desfile, ainda,
o Rei e toda sua corte, seguidos pelos batidas percussivas dos músicos. "O maracatu de baque virado, Estrela Brilhante, possui 40 músicos", afirma um dos
organizadores da agremiação lá do bairro da Mangabeira, Seu Jair. Desta forma, ainda podemos encontrar nos carnavais da cidade os tradicionais maracatus-nação,
em manutenção à cultura negra brasileira. Hoje, os movimentos de cultura popular estão conseguindo respirar e, a duras penas, conseguem colocar suas agremiações
na rua.
PERSONAGENS, INSTRUMENTOS E ADEREÇOS
1. PERSONAGENS:
REIS
RAINHA - sempre negra
PRÍNCIPE
PRINCESA
DAMAS DO PAÇO (duas) ou DA BONECA - conduzem a boneca
DAMAS DO BUQUÊ (em número variado) - portam
ramalhetes de flores artificiais. DAMAS DA CORTE - conduzem taças
EMBAIXADOR (em algumas agremiações pode ser o porta-estandarte - no Maracatu ESTRELA BRILHANTE, são personagens distintos. O embaixador faz parte da corte)
- veste-se como nobre da corte de Luís XV
PORTA-ESTANDARTE
PAGENS - seguram as caldas dos mantos reais.
ESCRAVO - conduz o pálio, aquele enorme chapéu de sol que proteje o rei e a rainha.
LANCEIROS - formam uma guarda, desfilam em cordões laterais, fechando externamente o grupo.
BAIANAS - vestidas do moda tradicional das baianas. Traje ritual das filhas de santo.
ORQUESTRA - composta unicamente de percussão.
CABOCLO DE PENA - o índio aparece em algumas nações. Tem como função servir de guia e proteção à nação africana.
2. INSTRUMENTOS DA PERCUSSÃO:
MINEIROS
GONGUÊS
TARÓIS
CAIXAS DE GUERRA
BOMBOS
3. ADEREÇOS:
ESTANDARTE - com forma e bordados semelhantes aos das irmandades católicas.
SÍMBOLO - figura em massa em papier-machê. Se muito grandes são carregadas em carroças.
BONECAS - tradicionalmente em madeira. Outros materiais vêm sendo usados nos menos tradicionais.
Traje semelhante ao da dama que a conduz.
COROA - rei e rainha desfilam coroados. Em geral, em latão ou arame a pedras.
DIADEMA - a princesa e algumas damas usam diademas adornados com pedras.
CETROS - rei, rainha, príncipe e princesa usam cetros, trabalhados em madeira ou latão.
ESPADAS E ESPADINS - rei, rainha, príncipe e princesa conduzem espadas ou espadins, em latão dourado ou prateado de tamanhos variados.
MANTOS - rei, rainha, príncipe e princesa e, algumas vezes, a boneca usam mantos.
BUQUÊ - algumas damas usam ramalhetes de flores de pano, papel ou plástico.
TAÇAS - prêmios de anos anteriores, levados pelas damas da corte.
UMBRELA ou PÁLIO - guarda-sol enfeitado por babados e franjas e que protege o rei e a rainha durante o cortejo.
LAMPIÕES - luminárias a gás de carbureto ou velas, necessários ao tempo em que o maracatu desfilava em ruas sem iluminação.
LANÇAS - varas em forma de lança medindo cerca de dois metros, conduzidas pelos lanceiros.

ORIGEM DO FOLGUEDO
A época em que surgiu o maracatu permanece sem uma definição. Apenas a data de 1808 é comprovada e documentada como a mais antiga referência do cortejo.
Esta data, entretanto, não estabelece, nem é tida como a da origem da manifestação. É que o viajante Henry Coster, passou pela ilha de Itamaracá no início
do século passado e registrou o espetáculo do rei do Congo e sua inigualável beleza. Portanto, quando foi que apareceu pela primeira vez, ninguém sabe
ao certo. Sabe-se, porém, que há tempo, quando os escravos ou não eram tidos como animais nas terras brasileiras e ansiavam por liberdade, a sociedade
da época precisava contê-los. Para isso, os negros escolhiam um representante que seria encarregado de liderá-los. Este era chamado de o rei da nação africana:
o Rei do Congo.
Esta instituição existiu em todo o Brasil Colonial. Possuía o consentimento da igreja católica e dos senhores de escravos, que pretendiam evitar as rebeliões
concedendo privilégios aos reis. A idéia possibilitou na verdade uma resistência cultural dos negros em pleno período de repressão da raça. Precisavam
lutar pela sua sobrevivência e muitos fugiam. Desta forma, os quilombos foram sendo fundados. Os Reis do Congo eram escolhidos numa bela cerimônia que
acontecia nos pátios de igrejas católicas, ligada a Irmandade de Nossa senhora do Rosário e ao culto de São Benedito. Os maracatus e afoxés nasceram da
união destas cerimônias às tradições africanas. Com o fim dos Reis do Congo, a população negra continuou celebrando a coroação através da dança e da encenação.
O baque virado das alfaias venceu o tempo e os negros vestidos como numa corte real mativeram vivas suas tradições e sua cultura.

  Por Cézar Maia

 

 

 

Participação de Carla Martires

publicado por tradicional às 22:46
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